O cronista indelicado
Passei a noite de quarta-feira a ler o programa eleitoral do PS. Valeu a pena: é raro ver tanta mediocridade concentrada em apenas 70 páginas. Sabem quantas vezes aparece a palavra "FMI" no programa eleitoral do PS? Zero vezes. A palavra "bancarrota"? Zero vezes. "Default"? Zero vezes. "Juros"? Zero vezes. "Austeridade"? Uma vez (deve ter escapado). E uma palavra tão importante quanto "aquicultura"? Bom, a aquicultura, que como todos sabemos é aquilo que neste momento mais preocupa os portugueses, é referida quatro vezes.
O programa eleitoral do PS parece ter sido escrito para governar Marte. Ele está tão fora da realidade que até lá se escreve que o défice de 2010 foi de 6,8% do PIB, quando ainda esta semana ele foi corrigido para 9,1% (e a crescer). Prepare-se: com o rigor nos números que caracteriza a malta do Largo do Rato, ainda vamos ter um PEPS (Programa Eleitoral do PS) IV. Aquilo que há dois dias chegou às mãos dos portugueses é uma nova demonstração de que quando o teleponto se apaga não sobra absolutamente nada na cabecinha do nosso querido engenheiro.
Estamos em Abril de 2011, há uma troika no Terreiro do Paço, e o programa eleitoral do PS não tem uma única palavra concreta sobre como reduzir o défice, diminuir o peso do Estado, repensar a segurança social ou reformular as leis do emprego. A única coisa que preocupou o inefável Sócrates foi antecipar-se ao PSD e poder debitar o sound bite da noite: "A oposição foi rápida a destruir e lenta a apresentar ideias." Que se tenha chegado à frente com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma não o preocupa minimamente. Afinal, o que interessa um programa quando temos um animal feroz, sempre tão vivo e resplandecente? José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa vai salvar o país através da aquicultura. Uma salva de palmas para ele.
AMOR À PRIMEIRA VISTA: ENTRAR NO DISCO VOADOR DOS CLÃ
As canções infantis nunca foram particularmente bem tratadas em Portugal, e as nossas criancinhas parecem condenadas a ouvir os enlatados pimba que passam no canal Panda. Daí que a notícia de que os Clã lançaram para a rua um disco com temas dedicados aos mais novos (mas sem os tratar como atrasados mentais ou analfabetos sonoros) só possa ser encarada com o maior entusiasmo.
15 SEGUNDOS DE FAMA: AS FOLEIRICES DO FOLEIRO LELLO
É com certeza foleiro José Lello ter chamado "foleiro" a Cavaco Silva apenas por não ter sido convidado para passear pelo Palácio de Belém no dia 25 de Abril – como o seu comentário bem o demonstra, Cavaco não tem de admitir nos seus jardins deputados mais apetrechados para circular pelas tabernas de Lisboa. Mas ainda mais foleiro foi o seu comentário posterior, atribuindo a foleirice a uma "arreliadora deficiência tecnológica". Boa piada. A forma como hoje os nossos políticos trincam a verdade como quem mastiga um bife diz muito acerca do lamentável descrédito em que a classe chapinha diariamente.
ENTREVISTAS IMAGINÁRIAS
PEDRO PASSOS COELHO, LÍDER DO PSD:"EU NÃO TENHO DE ME ESCONDER COM QUEM ME CASEI"
– Caro Passos Coelho, mas que ideia foi aquela de aparecer com a sua mulher em revistas cor-de-rosa e num vídeo de Páscoa?
– Ora essa, mas agora um político está proibido de aparecer em público com a sua legítima esposa? Não me diga que acha que o lugar de uma mulher é em casa, a cuidar dos filhos e a preparar o jantar…
– Não acho. Mas é que tudo aquilo teve um ar muito encenado…
– O que é que o senhor está a insinuar? Lá porque José Sócrates não quer e Paulo Portas não pode, isso não significa que eu tenha de esconder a pessoa com quem me casei. Tenho muito orgulho na minha família.
– Ninguém diria. A sua mulher naquele vídeo parecia um bibelô.
– Um bibelô?!?
– Sim, um bibelô. Limitou-se a olhar para si. E a olhar. E a olhar. E no fim desejou uma feliz Páscoa para todos.
– Quem desejou uma feliz Páscoa fui eu. A minha mulher desejou, isso sim, uma Páscoa feliz. Ela pensa pela sua própria cabeça, senhor jornalista!
In Correio da Manhã online
29/04/2011
Por: João Miguel Tavares, jmtavares@cmjornal.pt
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